domingo, 26 de dezembro de 2010

Declaração de Amor de d. Cely, minha mãe, a Vicente, meu pai

Tenho um caso lindo para contar...meu pai, tem suas funções normais bem limitadas há mais de 16 anos (hoje dia 26/12/2010). Ele tem pressão alta como parte de sua vida, desde mais jovem, e isto lhe trouxe muitas sequelas ao longo dos anos, apesar de todo acompanhamento e medicamentos. Minha mãe tem 88, e meu pai 96 anos de muita união, um tanto de histórias lindas, alegres, de testemunho de convivência para contar. Meu pai esteve hospitalizado por um dia, antes do Natal, por uma anemia e recebeu sangue para revigorar, pois as coisas não iam muito bem. Enquanto isto, minha mãe, que gosta muito de escrever, tendo três livros editados e muitas crônicas em rascunhos, fez a meu pai por escrito, uma linda declaração de amor, que já fez chorar algumas pessoas. Vou transcrever para não se perder no tempo...vamos lá...

" Ao meu marido

Com a corrida do tempo, as atividades do dia a dia, a luta pelo melhor, as preocupações inevitáveis, corre também a nossa vida. E assim, encontramos em tudo a necessidade de lutar, o prazer de poder lutar e comemorar as vitórias.
Esta tem sido a nossa vida.
O nosso casamento foi por amor. Trabalhamos juntos, nossas aposentadorias foram na mesma época, decidimos juntos as questões da nossa família. Resolvemos juntos os problemas surgidos. Tudo tem sido de comum acordo. Você, sendo mais sensato, as vezes sentia medo de tomar algumas decisões. Eu, sem olhar para o lado negativo, as vezes,tomava decisões arriscadas. Assim, passando por um fio de possibilidade, compramos uma casa em Belo Horizonte. Mesmo tendo pouco dinheiro,nunca compramos nada que não pudéssemos pagar e conseguimos equilibrar nossos recursos. Com a graça de Deus, temos transmitido aos nossos filhos o exemplo de vida honrada e digna.
Não acumulamos riqueza material, mas temos a riqueza da união familiar, a aceitação de nossos filhos na sociedade, a graça de filhos sadios, perfeitos e bons. Recebemos entre outras tantas, a graça maior de completarmos sessenta anos de feliz união matrimonial. Não fizemos festa, mas fomos à Igreja, recebemos a Sagrada Comunhão e demos o testemunho de nossa felicidade. Agradecemos a Deus pela graça tão rara. Na simplicidade do ato, estava a grandiosidade da satisfação. Hoje, oito de dezembro de dois mil e dez, eu, com oitenta e oito anos e você com noventa e seis, vivemos da memória, da tranquilidade de aceitar tudo e caminharmos com a consciência limpa. Esperamos com fé o que Deus nos reservou.
Ainda tenho forças e a oportunidade dar cursos nas Igrejas. O que faço com muito carinho. Ainda redijo aulas e faço pesquisas para melhorar o conteúdo do que ensino.
Gosto de escrever e relatar fatos antigos que ilustraram e divertiram muita gente.
Ainda posso administrar nossa casa. Controlar nossos salários. Atender nossos compromissos. Não será possível enumerar tantas graças recebidas durante esta longa caminhada. Hoje, o que mais me preocupa na vida resume-se dentro de nossa casa. Já não me preocupo com o que está fora dos muros de nossa residência. Porque, dentro, está você, que me incentiva, que me preocupa, que completa minha vida. Você constitui o meu maior objetivo.
Você, que há dezesseis anos perdeu a capacidade de locomover-se, perdeu também a capacidade de falar, de ouvir, que não pode nem mesmo alimentar-se sem a ajuda de alguém, que não tem condições de segurar um copo d'água, mas que é lúcido, consciente. Não reclama, não se irrita, não chora.
Às vezes, interpreto os movimentos dos seus lábios e entendo quando você me olha e, com dificuldade, balbucia: "Querida".
Voce é um santo. O meu prazer de viver está anexo à sua vida. O que sinto por você é mais do que amor. É o desejo ardente de estar a seu lado por todo o sempre."



E aí?? Não é uma linda declaração?? Ah!! Sobre os cursos que minha mãe dá nas Igrejas, são todos de graça: nunca cobrou um centavo de quem quer que fosse durante...sei lá, já uns 12 anos que ela faz esse trabalho... Lindo, não??